pt Vozes Chinesas
No. 32 | 13.02.2022
Os mascotes dos Jogos Olímpicos de Inverno e Paraolímpicos de Pequim 2022 Bing Dwen Dwen e Shuey Rhon Rhon são vistos em Beijing nesta foto tirada em 12 de janeiro de 2022. [Foto/IC]
A importância da relação estratégica sino-russa
Yu Bin
Yu Bin (于滨) é pesquisador sênior do Centro de Estudos Russos da Universidade Normal da China Oriental e professor de Ciência Política da Universidade de Wittenberg.

Contexto

Com os EUA em um impasse cada vez maior com a China, a presença militar estadunidense na Ucrânia e a crise Rússia-Ucrânia delineada, a reunião de 4 de fevereiro em Beijing entre Xi Jinping e o presidente russo Vladimir Putin despertou muita atenção na China e fora dela. Durante essa reunião, Xi enfatizou "[O] compromisso entre a China e a Rússia de aprofundar a coordenação estratégica e manter equanimidade internacional e justiça lado a lado diante das mudanças profundas e complexas na situação internacional". Em seu artigo, Yu Bin compara e analisa as diferenças entre a política externa dos EUA em relação à Rússia e à China, explicando por que é tão importante manter as relações sino-russas.

Pontos-chave

  • A posição austera dos EUA em relação à China deriva não apenas do chamado consenso bipartidário, mas também de um subconsciente social bastante arraigado e racializado.
  • O establishment estadunidense nunca desistiu de seus esforços para trazer a Rússia de volta à órbita ocidental. Desde o colapso da União Soviética, todos os presidentes dos EUA iniciaram seu mandato com uma "reinicialização" das relações com a Rússia, em paralelo a um processo de estagnação, regressão e deterioração das relações EUA-China.
  • A ponderação política do establishment dos EUA é enfraquecer e dividir o máximo possível a relação sino-russa e, assim, retornar a uma posição dominante no jogo entre os três países.
  • Alguns políticos dos EUA têm apontado que a competição sino-estadunidense é uma luta entre duas civilizações e duas raças, algo que os EUA nunca enfrentaram antes. A rivalidade com a União Soviética durante a Guerra Fria foi, de certa forma, uma "luta dentro da família ocidental" (Kiron Skinner).
  • As comunidades acadêmicas e políticas dos EUA sempre "valorizaram a Rússia em detrimento da China". Entre os principais formuladores de políticas de Segurança Nacional e Negócios Estrangeiros dos Estados Unidos, existem muitos especialistas na União Soviética, tais como Henry Kissinger, Zbigniew Brzezinski e Condoleeza Rice. No entanto, os especialistas estadunidenses em China nunca subiram ao topo da hierarquia da elaboração de políticas públicas.
  • Diante das táticas de supressão e desassociação dos EUA, a China e a Rússia precisam permanecer vigilantes. A Rússia e a China excluíram amplamente fatores ideológicos de suas relações bilaterais e estão, de fato, defendendo o moderno sistema de Estados soberanos baseado na não interferência nos assuntos internos de outros países.

Resumo

De acordo com Bin, uma das razões fundamentais para os EUA tratarem a China e a Rússia de maneira diferente é o nível de "ameaça" que cada país representa para os estadunidenses. A China é vista como uma ameaça a longo prazo, abrangente e estratégica para os EUA, enquanto a Rússia é considerada um "problema" de curto prazo, regional e relacionado à segurança. É provável que os EUA não desistam dos esforços para minar as relações sino-russas. Portanto, a China não deve menosprezar o melhor momento da parceria estratégica sino-russa da história, continuando, ao invés disso, a melhorar as relações econômicas entre os dois países, bem como a fortalecer os laços entre os dois povos.

O Embaixador Qin Gang fala sobre os Jogos Olímpicos de Inverno e Xinjiang em entrevista à NPR
Qin Gang
Qin Gang (秦刚) é o décimo-primeiro embaixador chinês para os EUA, assumindo seu novo cargo em 28 de julho de 2021, e serviu como vice-ministro das Relações Exteriores da China.

Contexto

Em 27 de janeiro, Qin Gang, embaixador chinês para os EUA, foi entrevistado pela "Morning Edition" da NPR sobre os Jogos Olímpicos de Inverno de Beijing, Xinjiang e Taiwan, relações EUA-China, e outros assuntos. A entrevista foi conduzida por Steve Inskeep, da NPR.

Pontos-chave:

  • Para garantir um evento simples, seguro e esplêndido, os Jogos Olímpicos de Inverno de Beijing incluem um mecanismo "de circuito fechado" de prevenção da pandemia para atletas e pessoal, além de energia verde em todas as instalações, tecnologia avançada de produção de gelo e emissões quase nulas de carbono.
  • Se você quer saber se um país tem liberdade e direitos humanos, então tem que perguntar ao povo desse país. Pesquisas realizadas tanto pela Harvard Kennedy School quanto pelo Edelman mostram que mais de 90% do povo chinês está satisfeito com seu governo.
  • No caso de Xinjiang, as pessoas que violam a lei são levadas à justiça e algumas enfrentam a prisão. Para aqueles que são influenciados pela ideologia extremista, o governo chinês criou centros de educação e treinamento para fornecer formação em idiomas, legal e profissionalizante, permitindo-lhes ganhar a vida decentemente e evitando que sejam arrastados para o extremismo e o separatismo.
  • A população uyghur mais que duplicou de tamanho nos últimos 40 anos; a expectativa média de vida nos últimos 60 anos aumentou de 30 para 72. Os chamados "genocídios" ou "trabalhos forçados" são mentiras construídas para fins políticos.
  • O público chinês tem amplo acesso à informação com mais de um bilhão de usuários da internet, a qual o governo chinês regulamenta para proteger o interesse público. O governo consulta o público antes de cada grande decisão e tem múltiplos canais para coletar e ouvir a opinião pública e as críticas.
  • A questão de Taiwan é o "maior barril de pólvora" entre os EUA e a China. Se as autoridades taiwanesas continuarem a pressionar pela "independência de Taiwan" com o apoio dos EUA, é provável que isso atraia as duas maiores potências para o conflito militar.

Resumo

De acordo com Qin Gang, as relações sino-estadunidenses estão em um momento desafiador. O povo chinês, incluindo seus líderes, acredita que esta relação bilateral é uma das mais importantes, e a China está disposta a promover ativamente sua melhoria. O princípio de "uma China única" é o fundamento político desta relação, e evitar a guerra e o conflito é o maior denominador comum entre os EUA e a China. Ambos os lados devem trabalhar juntos para deter as forças da "independência de Taiwan" e promover a reunificação pacífica através do Estreito de Taiwan.

Por que o encolhimento demográfico da China não afetará as perspectivas econômicas
Lin Yifu
Justin Lin Yifu (林毅夫) é decano do Instituto de Nova Economia Estrutural, decano do Instituto de Cooperação e Desenvolvimento Sul-Sul e professor e decano honorário da Escola Nacional de Desenvolvimento da Universidade de Pequim. Foi vice-presidente sênior e economista-chefe do Banco Mundial.

Contexto

Em 2021, o número de recém-nascidos na China foi de 10,62 milhões, um aumento líquido de apenas 480.000, o menor desde 1962. Muitos economistas acreditam que a vantagem demográfica da China, uma das importantes forças propulsoras do crescimento do país nos últimos 40 anos, pode acabar em breve, e isso terá um impacto negativo sobre seu crescimento a longo prazo. Em uma entrevista recente, Justin Lin Yifu contra-argumenta que o declínio da população não terá nenhum impacto sobre as perspectivas econômicas do país asiático.

Pontos-chave

  • O declínio geral da taxa de crescimento populacional dificilmente influenciará a economia no curto prazo. É o crescimento ou declínio da população em idade ativa de trabalhar que contribui ou diminui o crescimento econômico. Poderia levar 15 anos até que uma taxa de natalidade em declínio levasse a uma diminuição da força de trabalho da população em idade ativa de trabalhar.
  • A longo prazo, o que importa para o crescimento econômico não é o volume da força de trabalho, mas sim a sua qualidade. A China pode eliminar o impacto negativo sobre uma força de trabalho em declínio por meio da educação.
  • Elevar a idade da aposentadoria é outra maneira de lidar com a escassez de trabalhadores. Na China, a idade de aposentadoria é de 60 anos para homens e 55 para mulheres, ao passo em que 65 anos é a média global.
  • Dentro de 15-20 anos, a economia da China dependerá principalmente de indústrias de capital e tecnologia, que exigem menos trabalhadores do que as indústrias de mão-de-obra intensiva.

Resumo

Além das pressões populacionais, há outros fatores que afetam a economia da China em 2022. Nos próximos meses, muitos países terão que enfrentar a pressão proveniente dos aumentos das taxas de juros do Federal Reserve dos EUA. Lin afirma que a China está mais bem preparada do que outros países em desenvolvimento para mitigar o risco de saída de capital devido às suas vantagens na gestão de fluxos de capital de curto prazo e a suas enormes reservas em moeda estrangeira. Como uma economia em recuperação, a China ainda tem um enorme espaço para expansão. Por exemplo, o governo pode implementar uma política fiscal proativa para melhorar tanto a infraestrutura digital quanto a urbana, e ao mesmo tempo usar uma política monetária mais flexível para alavancar o investimento privado na modernização de indústrias e na inovação. Lin acredita que esses movimentos estabilizarão o crescimento da China em 2022.

Documentário lançado sobre a abordagem de “tolerância zero” do PCCh à corrupção
Comissão Central de Inspeção Disciplinar do PCCh (CCDI, por sua sigla em inglês)
A Comissão Central de Inspeção Disciplinar do PCCh (CCDI) é o mais alto órgão disciplinar da China que inspeciona a política do PCCh, fortalece a construção do Partido e organiza o trabalho anticorrupção.

Contexto

Em janeiro deste ano, um documentário anticorrupção de cinco episódios denominado "Tolerância Zero", produzido conjuntamente pela Comissão Central de Inspeção Disciplinar (CCDI) e a mídia estatal CCTV, se tornou viral na internet. Desde o 18º Congresso do Partido Comunista em 2012, o Presidente Xi Jinping lançou a campanha anticorrupção. O documentário destacou 16 casos detalhados mostrando a atitude de "tolerância zero" do PCCh em relação à corrupção e sua determinação de lutar contra ela. Um caso típico é sobre Zhou Jiangyong (周江勇), ex-membro do Comitê Permanente do PCCh da Província de Zhejiang e ex-secretário do Comitê Municipal do Partido de Hangzhou, sede da gigante tecnológica chinesa Alibaba. Uma acusão notável é que ele "conspirou com o capital e apoiou sua expansão desordenada".

Pontos-chave

  • Como um quadro de alto escalão promovido após o 18º Congresso do Partido Comunista, Zhou serviu como o Primeiro-em-Comando (一把手 yī bǎ shǒu) nas cidades de Zhoushan, Wenzhou e Hangzhou em Zhejiang, mas foi gradualmente corrompido pelo poder.
  • Zhou se envolveu na corrupção familiar, usando seu poder público para ajudar seu irmão Zhou Jianyong(周健勇) com seus negócios. Zhou Jiangyong usou sua influência para obter terras gratuitas para a companhia que seu irmão fundou. Ao trocar poder por dinheiro, eles receberam mais de 7 milhões de yuan como recompensa lucrativa.
  • Depois de assumir o cargo do Secretário do Comitê Municipal de Partido da cidade de Zhoushan, Zhou Jiangyong ajudou vários empresários a lograr contratos de projeto usando seu irmão como "firewall" para escapar da supervisão. Entre 2013 e 2017, Zhou Jianyong recebeu mais de 90 milhões de yuan em "comissões" de Shi Shihong, um homem de negócios.
  • Com a ajuda de Zhou Jiangyong, seu irmão cofundou uma empresa de tecnologia e investiu em projetos de pagamento móvel para o transporte metroviário. Algumas empresas compraram ações desta companhia de tecnologia a preços obviamente inflacionados, enquanto Zhou Jiangyong as ajudou a obter tanto terras a baixo preço como políticas preferenciais.
  • Em agosto de 2021, Zhou Jiangyong foi submetido à investigação depois de muitas pessoas haverem denunciado seus crimes de corrupção ao governo. No dia 26 de janeiro de 2022, ele foi expulso do Partido e dos órgãos públicos.

Resumo

A narração do documentário diz que o PCCh está consciente do fato de que o maior desafio para a liderança abrangente e de longo prazo do Partido é a supervisão do poder. O poder público deve pertencer ao povo e assegurar o bem-estar do povo. O documentário cita Xi Jinping ao dizer: "A luta entre a corrupção e os esforços anticorrupção continuará a existir por um longo período ainda por vir… devemos estar cientes das dificuldades e seguir em frente".

O início do Marxismo na China: da Insurreição de Nanchang à Base Revolucionária da Montanha Jinggang
Shi Zhongquan
Shi Zhongquan (石仲泉) é ex-diretor adjunto do Escritório de Pesquisa de História do Partido do Comitê Central do Partido Comunista da China.

Contexto

Desde a Insurreição de Nanchang (南昌起义 nánchāng qǐyì), em 1927, até a fundação da Base Revolucionária na Montanha Jinggang (井冈山 jǐnggāngshān), entre 1927 e 1929, o Partido Comunista da China (PCCh) explorou gradualmente um caminho revolucionário diferente das revoltas armadas urbanas da Revolução Russa de 1917. Esse novo caminho foi definido pela realidade chinesa e marcou o capítulo inaugural do Marxismo na China. Em 1924, sob a orientação da Terceira Internacional (Comintern), o Partido Kuomintang (KMT) e o PCCh cooperaram para lançar a Grande Revolução Chinesa (1925-1927大革命dà gémìng) para derrubar as potências imperiais e os caudilhos militares de Beiyang (北洋军阀 běiyáng jūnfá). Entretanto, em 1927, o KMT desertou e os comunistas foram massacrados. Em seu artigo, Shi Zhongquan explica em detalhes como, após o fracasso da Grande Revolução Chinesa, o PCCh devastado encontrou outra saída, levando a uma reviravolta na sinicização do Marxismo.

Pontos-chave

  • A Insurreição de Nanchang de 1º de agosto de 1927 foi o início da resistência armada do PCCh ao KMT e da liderança independente da Revolução Chinesa por parte dos comunistas, o que levou à criação do primeiro exército popular (人民军队 renmín jūnduì).
  • Após a Grande Revolução Chinesa (1925-1927) e sua derrota, e no proveito da experiência histórica das revoltas camponesas na China antiga, a ideia de "ir para as montanhas" foi discutida dentro do Partido e gradualmente se tornou uma prática. Depois da fracassada Revolta da Colheita de Outono, liderada por Mao Zedong em outubro de 1927, Mao se dirigiu para a Montanha Jinggang, na fronteira entre as províncias de Hunan e Jiangxi. Ali se formou a ideia de Mao de um "regime independente de operários e camponeses armados" (工农武装割据 gōngnóng wǔzhuāng gējù).
  • Na Montanha Jinggang, também se desenvolveram as teorias do exército popular e da orientação militar, enfatizando a liderança política e ideológica do Partido sobre o exército, defendendo a implementação de um sistema democrático dentro da tropa, e estabelecendo as "três disciplinas principais" (三大纪律 sān dà jìlǜ) e "oito pontos de atenção" (八项注意 bā xiàng zhùyì) , uma doutrina militar que incluía uma série de regras que exigiam altos padrões de comportamento e respeito pelos civis durante a guerra. Isso pode ser considerado o protótipo da teoria militar marxista sinicizada.
  • Em abril de 1928, na área de base se lançou uma revolução fundiária em grande escala e se formulou a primeira lei da terra do Partido: a Lei da Terra da Montanha Jinggang (井冈山土地法 jǐnggāngshān tǔdì fǎ), que foi pioneira para a reforma agrária com características chinesas.
  • Na Montanha Jinggang, Mao Zedong propôs pela primeira vez a importância da construção ideológica do Partido, ou seja, todos os membros do PCCh devem estar munidos da ideologia proletária, o que foi um passo importante na sinicização da teoria marxista em termos da construção do Partido.

Resumo

A Base Revolucionária da Montanha Jinggang foi a primeira a ser liderada pelo PCCh e existiu durante 15 meses, abrindo uma nova direção para a revolução chinesa. Outras bases revolucionárias lideradas por Fang Zhimin no nordeste de Jiangxi, He Long no oeste de Huanan e Hubei, e Li Wenlin no sudoeste de Jiangxi também contribuíram para a criação do Marxismo sinicizado. É o auge da sabedoria coletiva de todo o Partido, com Mao Zedong como seu principal criador, juntamente com as contribuições de Zhu De, Chen Yi, Zhou Enlai, e outros revolucionários de geração mais velha.

(O “Vozes Chinesas” continuará a interpretar o contexto histórico e a lógica de desenvolvimento da sinicização do Marxismo)

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