pt Vozes Chinesas
No. 15 | 03.10.2021

Devido ao feriado do Dia Nacional, não vamos publicar "Vozes Chinesas" no próximo domingo, estaremos de volta no dia 17 de outubro

Relações sino-russas e um novo paradigma da Eurásia
Feng Shaolei
Feng Shaolei (冯绍雷) é professor da Universidade Normal do Leste da China, diretor do Centro Colaborativo de Inovação para Cooperação e Desenvolvimento Periféricos e do Centro de Estudos Russos

O professor Feng Shaolei acredita que a retirada militar dos EUA do Afeganistão revela os entraves institucionais do Ocidente liderado pelo país norte-americano. As ações dos EUA não apenas levam seus aliados ocidentais a refletirem sobre as consequências de seguirem sua liderança, mas também fornecem aos países não ocidentais uma estrutura para pensar em caminhos alternativos em direção ao desenvolvimento independente. Feng ressalta que, por mais de duas décadas, não houve "reversão do processo Nixon", referindo-se aos esforços conjuntos dos EUA e da Rússia para inibir a China. Os EUA e seus aliados desencadearam uma série de grandes conflitos e crises, como a expansão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), a Guerra do Iraque, as “revoluções coloridas", os conflitos na Ucrânia e as provocações contra a China no Mar do Sul da China e no Mar Oriental da China – o que vem gradualmente aproximando Rússia e China. Os dois países têm se tornado cada vez mais unidos na defesa dos princípios de governança, a fim de salvaguardar a soberania e resistir à hegemonia. Isso explica por que as tentativas de alijar as duas nações sempre fracassaram. Enfrentando a confrontação estadunidense, os países eurasianos unem forças sob a tendência de "nova neutralidade", como exemplificada pela proposta russa de "novo não-alinhamento". Feng sustenta que essa tendência indica o seguinte: primeiramente, a maioria dos países evitaria, a todo custo, um confronto baseado no alinhamento. Em segundo lugar, todas as nações e povos são livres para escolher seu próprio caminho de desenvolvimento. Terceiro, a política de "novo não-alinhamento" é uma posição pragmática mutuamente benéfica para todos os países. Em harmonia com esse fluxo, a estrutura institucional inclusiva da Iniciativa do Cinturão e Rota (Nova Rota da Seda ou Belt and Road Initiative) detém o maior potencial para o aprofundamento da cooperação eurasiática.

Quais são os desafios que a China enfrenta na sua adesão à Parceria Transpacífica?
Ding Yifan
Ding Yifan (丁一凡) é membro-sênior do Instituto de Desenvolvimento Global, sob o Centro de Pesquisas para o Desenvolvimento do Conselho de Estado da China

No último dia 16 de setembro, a China solicitou formalmente a adesão ao Acordo Abrangente e Progressivo para a Parceria Transpacífica (CPTPP, por sua sigla em inglês), um bloco comercial de 11 nações formado em 2018, após a retirada dos EUA do arranjo que ficara conhecido como Acordo de Parceria Econômica Estratégica Transpacífica ou “Acordo Transpacífico” (TPP, por sua sigla em inglês) um ano antes. Dados os obstáculos políticos, esta ação leva a uma especulação sobre a probabilidade de sucesso da China em sua adesão ao CPTPP. Em uma entrevista, Ding Yifan afirma que os aliados dos Estados Unidos no âmbito do CPTPP, como o Japão e a Austrália, podem não necessariamente bloquear a candidatura do gigante asiático, mesmo que o considerem uma "ameaça estratégica". O Japão, país que preside atualmente o acordo, reduziu recentemente sua resistência em relação à solicitação da China por duas razões principais. Primeiramente, o CPTPP poderia ajudar a melhorar as relações sino-japonesas e, além disso, a China, sendo a segunda maior economia do mundo, representaria um salto quântico na expansão do CPTPP. Por sua vez, como membro da Parceria Regional Econômica Abrangente (RCEP, por sua sigla em inglês), a Austrália preferiria que a China fosse submetida às restrições dos preceitos relativamente rigorosos do CPTPP em vez de bloquear o país por completo. O Canadá e o México, entretanto, poderiam representar um entrave à candidatura do país ao CPTPP, em razão do Acordo Estados Unidos-México-Canadá (USMCA, por sua sigla em inglês), ou “novo NAFTA”. Isso poderia forçar a Canadá e o México a escolher o lado estadunidense em detrimento da China. O USMCA contém uma cláusula de "pílula de veneno", exigindo que qualquer um dos três membros notifique os outros se desejar realizar um acordo comercial com uma "economia centralizada". Além disso, os críticos fora da China estão preocupados com que o país não seja capaz de atingirem os patamares mínimos do CPTPP quanto ao fluxo de dados transfronteiriço, propriedade intelectual, empresas estatais, entre outros campos. Ding, entretanto, afirma que as preocupações com tais limiares são principalmente um produto do retrato negativo da mídia ocidental sobre a China. A China é líder em tecnologia de dados em todo o mundo e evoluiu muito na proteção dos direitos de propriedade intelectual, direitos trabalhistas e governança corporativa das empresas estatais. Dessa forma, o país pode atender aos padrões do comércio.

A crise da dívida de Evergrande reflete o risco na indústria imobiliária chinesa do lado da oferta
Huang Qifan
Huang Qifan (黄奇帆) é professor da Universidade de Fudan e ex-prefeito de Chongqing.

A empreiteira imobiliária líder da China, Evergrande, enfrenta uma crise da dívida. No entanto, isso era esperado há muito tempo, em razão das questões permanentes no setor imobiliário e da abordagem governamental de “trabalhar para o melhor, preparar-se para o pior” (底线思维 Dǐxiàn sīwéi), voltada para mitigar riscos financeiros. Huang Qifan explica que os problemas da indústria imobiliária chinesa residem em cinco aspectos do lado da oferta, um dos quais é o modelo de negócios altamente alavancado e profundamente endividado. Por exemplo, em 2019, o índice médio de dívida líquida sobre o patrimônio líquido entre as 100 maiores empreiteiras imobiliárias da China excedeu 100 por cento. Caso o governo não adote as medidas apropriadas, algumas empresas, que são grandes demais para falir, provavelmente conduzirão a riscos financeiros sistemáticos. Alguns dos outros problemas incluem o desequilíbrio na oferta de recursos fundiários. O uso comercial e habitacional do solo corresponde a apenas 15% do uso total do solo, o que representa menos do que o uso industrial do solo. O segundo impacto consiste no alto custo de moradia. Durante mais de dez anos, os preços dos imóveis nas cidades de primeira linha subiram de oito a dez vezes, em parte devido ao sistema de leilão de terrenos. Alguns governos locais dependem das receitas de transferência de terras e outros impostos relacionados à propriedade, elevando os preços das moradias. Nos últimos anos, 35% da receita total do governo em todos os níveis têm sido provenientes de impostos e taxas relacionados a imóveis. Finalmente, a oferta de moradias públicas e de baixa renda, que constituem 10% de todas as propriedades, é insuficiente. Huang sugere que, na reforma do setor do lado da oferta, é necessário impulsionar o desenvolvimento saudável do mercado imobiliário. Endurecer o controle do financiamento, reduzir a alavancagem e aumentar a oferta de moradias para aluguel estão entre as tarefas necessárias para atingir o objetivo fundamental do direito de todos à moradia.

O retorno de Meng Wanzhou à China: a relevância global da inovação organizacional da Huawei
Song Lei
Song Lei (宋磊) é professor da Escola de Governança da Universidade de Pequim. Sua pesquisa abrange as relações governo-negócios e a estratégia industrial sob a perspectiva da economia política comparada, questões de democracia econômica e gestão estratégica das organizações públicas.

Diante do retorno à liberdade de Meng Wanzhou, a relevância global das práticas organizacionais inovadoras da Huawei deve ser reconhecida. De acordo com Song Lei (宋磊), entender a Huawei somente a partir da perspectiva da grande competição por poder e progresso tecnológico ofusca o significado de sua inovação organizacional no mundo industrial. Song aponta que o "sistema de parceria em grande escala" da Huawei incorpora a democracia econômica: as ações da Huawei são predominantemente de titularidade de seus funcionários, e o fundador possui apenas 1,14% do total. No início de 2019, 96.768 dos mais de 100.000 funcionários da Huawei possuíam ações, tornando a companhia líder na conquista da democracia econômica entre as grandes empresas de alta tecnologia. A divisão interna de trabalho peculiar da Huawei cria capacidades na absorção de ideias a partir de intercâmbios internacionais, lastreia a construção de um mecanismo de incentivo centrado na remuneração, regula a gestão de pessoal e a estrutura organizacional, e encoraja o revezamento da função de CEO, por exemplo. O método de gestão e tal otimização dinâmica da forma organizacional são passos inovadores dados pela Huawei em direção ao objetivo de prevenir a "doença das grandes empresas". Além disso, a prática da Huawei representa a melhor utilização da "co-ompetição entre propriedades diversas" (跨所有制竞合 Kuà suǒyǒuzhì jìng hé) – cooperação e competição – entre as empresas chinesas. O termo se refere à rede de relações interempresariais entre empresas estatais, privadas e estrangeiras. Song acredita que a Huawei está se tornando uma companhia pioneira, abrindo novos caminhos para a construção de uma nova geração de empresas nos países em desenvolvimento.

Uma história do hino nacional da China
Jiang Longfei
Jiang Longfei (姜龙飞) é ex-diretor do Departamento de Publicidade dos Arquivos Municipais de Shanghai e ex-editor-chefe dos periódicos Memórias e Arquivos e Arquivos de Shanghai.

Na ocasião da celebração do 72º aniversário da fundação da República Popular da China (RPC), recomendamos aos nossos leitores o artigo de Jiang Longfei sobre a história do hino nacional da China. O filme Filhos de Tempos Difíceis (《风云儿女》Fēng yún ér nǚ) conta uma história sobre a resistência à invasão japonesa. A música tema deste filme, Marcha dos Voluntários (《义勇军进行曲》Yì yǒng jūn jìn xíng qǚ), foi adotada como hino nacional provisório em 27 de setembro de 1949, poucos dias antes da cerimônia de fundação da RPC. Após a eclosão do Incidente de 18 de setembro (九一八事变 Jiǔ yī bā shì biàn), em 1931, e do Incidente de Shanghai (淞沪抗战 Sōng hù kàng zhàn), em 1932, a própria sobrevivência da China estava em risco. No início de 1934, patriotas chineses formaram um Exército Voluntário Anti-japonês para se opor à invasão japonesa. As organizações clandestinas do PCCh em Xangai fundaram a Companhia de Filmes Diantong para produzir filmes de esquerda com o objetivo de apoiar o movimento anti-japonês. Depois de ter concluído o esboço do filme, o dramaturgo Tian Han (田汉) foi preso pela autoridade do Partido Kuomintang sob a acusação de "propagar o comunismo". Enquanto estava na prisão, ele escreveu a letra da música tema na embalagem de um maço de cigarros, a qual foi secretamente levada para fora da prisão por seu camarada. Quando o compositor Nie Er (聂耳) leu a canção, ele se lembrou de uma experiência que tinha testemunhado na linha de frente da batalha contra os japoneses. Ele se inspirou, então, a compor a música, e completou o rascunho de uma só vez. Infelizmente, Nie se afogou com apenas 23 anos de idade enquanto estava exilado no Japão. Um grande memorial foi estabelecido em sua homenagem pela Companhia de Filmes Diantong em 16 de agosto de 1935. A canção foi finalmente denominada Marcha dos Voluntários, na medida em que Zhu Qinglan (朱庆澜), organizador da Sociedade de Apoio aos Voluntários do Exército do Nordeste e investidor do filme, acrescentou a palavra "voluntários" ao título original. Avshalomov, um compositor soviético que vivia em Xangai naquele momento, foi convidado para orquestrá-lo. Acompanhada de trompetes e tambores militares, a comovente melodia criada por Avshalomov foi tocada no começo do filme, inspirando muito o público com o espírito de luta. Desde a sua primeira estreia no filme Filhos de Tempos Difíceis em 1935 à designação como hino nacional provisório de 1949, e posterior estipulação na Constituição em 2004, a canção Marcha dos Voluntários atravessou a trajetória e períodos tumultuosos da nação chinesa e sintetiza o espírito nacional.

Inscreva-se para receber Vozes Chinesas. O resumo é publicado todos os domingos em inglês, espanhol e português.Baixe o PDF dos artigos completos (traduzidos automaticamente) deste número. As opiniões dos artigos não são necessariamente compartilhadas pelo coletivo editorial Dongsheng.

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