pt Vozes Chinesas
No. 34 | 27.02.2022
Uma trabalhadora da saúde registra informações pessoais de uma mulher em um ponto de testes de COVID-19 em Hong Kong, 24 de janeiro de 2022. [Foto/Xinhua]

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—Coletivo editorial Dongsheng

Por trás da crise da Ucrânia: uma lição para a China
Gao Cheng
Gao Cheng (高程) é pesquisadora do Instituto Ásia-Pacífico e Estratégia Global, Academia Chinesa de Ciências Sociais

Contexto

Em 21 de fevereiro de 2022, o presidente russo Vladimir Putin reconheceu as regiões separatistas da Ucrânia Oriental, Donetsk e Lugansk, como Estados independentes. Gao Cheng analisa com profundidade o jogo geopolítico entre os Estados Unidos, a Rússia e os países europeus na Ucrânia durante os últimos anos, suas razões fundamentais, e aborda detalhadamente as implicações da crise ucraniana para a China.

Pontos-chave

  • Por trás da crise na Ucrânia está o conflito histórico entre os EUA e a Rússia no período pós-Guerra Fria. Após o colapso da União Soviética, a Rússia tentou estabelecer relações estreitas com o Ocidente até o final de 2008.
  • A crise na Ucrânia foi o gatilho para a rápida deterioração das relações Rússia-EUA. Desde o abandono do compromisso estadunidense de "nenhuma incursão ao leste por parte da OTAN", até o apoio deste aos regimes aliados entre os antigos países soviéticos, passando pela infiltração política e revoluções coloridas, até a atual crise da Ucrânia, a atitude da Rússia em relação aos EUA mudou de paciente e de resistência branda para um forte contra-ataque.
  • A Rússia não pode sentar-se e observar o Ocidente controlar sua zona de defesa estratégica, já que a expansão da OTAN para o leste é uma ameaça à segurança de sua fronteira. Em particular, a Rússia não pode permitir que os EUA façam da Ucrânia uma frente militar para contê-la.
  • Os EUA tentaram usar a Ucrânia para manter a Rússia sob controle, criar tensões entre esta e a Europa e fortalecer com sucesso a dependência de segurança dos países da União Europeia. Entretanto, a relação de confiança entre os Estados Unidos e a Europa também se enfraqueceu devido ao declínio do poder e do status europeu.
  • As políticas estadunidenses de contenção da China na região Ásia-Pacífico e enfraquecimento contínuo da Rússia na Europa andam de mãos dadas.
  • A contradição entre a Rússia e a China, de um lado, e o ambiente internacional dominado pelos EUA, de outro, é uma das bases fundamentais da cooperação estratégica entre a os dois primeiros países, e a crise na Ucrânia é apenas mais um catalisador para promover as relações sino-russas.
  • A partir de uma perspectiva de pragmatismo econômico, as sanções ocidentais podem facilitar as exportações de energia da Rússia para a Ásia e possibilitar o fortalecimento da cooperação sino-russa e a expansão para diversos campos como finanças, construção de ferrovias de alta velocidade, agricultura, tecnologia militar e manufatura.

Resumo

De acordo com Gao Cheng, o conflito na Ucrânia não levará os Estados Unidos a mudar sua estratégia de contenção da China. Os EUA tentarão impedir que a China e o Japão cooperem na Ásia, enquanto tentam impedir que os países europeus se alinhem com a Rússia na Europa. Enfrentando a pressão do sistema internacional dominado pelos EUA, a China e a Rússia manterão e aprofundarão sua parceria estratégica abrangente por um período de tempo mais longo no futuro. Em um momento de desconfiança mútua entre as grandes potências, e com a integração regional dificultada, a China e a Rússia precisam pensar em como se tornar uma força construtiva para mudar a ordem internacional estabelecida, o que é desfavorável para eles e para os países emergentes.

O controle da pandemia como um teste para a governança patriótica de Hong Kong
Tian Feilong
Tian Feilong (田飞龙) é professor associado da Escola de Estudos Avançados/Faculdade de Direito, Beihang University

Contexto

O recente surto de Covid-19 em Hong Kong está se espalhando intensamente. Muitos residentes de Hong Kong passaram a viver na China Continental, e alguns inclusive migraram ilegalmente para escapar da pandemia. O governo central enviou um grande número de médicos para Hong Kong para ajudar. Tian Feilong aponta que a oscilação entre os modelos chinês e ocidental de controle da pandemia é a principal razão pela qual Hong Kong tem lutado para conter o vírus.

Pontos-chave

  • A causa fundamental das oscilações e insucessos de Hong Kong no combate à Covid-19 é que seus funcionários públicos e elites sociais estão acostumados a seguir os valores e modelos ocidentais, e priorizam a tomada de decisões e as práticas de implementação que garantem a retomada das viagens sem quarentena (通关 tōngguān) para o oeste. Isto cria uma desconexão com os interesses estratégicos e públicos da China.
  • Atingir as metas da política de zero casos de Covid-19 e reabrir as fronteiras com a China Continental consistem em um teste significativo da política anti-epidêmica de Hong Kong. Ela pode garantir que a região não fique atrás da bem sucedida política de gestão anti-Covid-19 da China Continental, e assim continuará a participar e usufruir dos benefícios do desenvolvimento econômico da área de Guangdong-Hong Kong-Macau Greater Bay.
  • As atuais medidas de contenção da pandemia tomadas por Hong Kong não são eficazes para controlar o surto. Se a região aderir à "política de zero-Covid" (清零政策 qīng líng zhèngcè)e gozar do apoio do governo central, ainda há esperança de que a meta de zero casos de Covid-19 possa ser alcançada, e que a fronteira terrestre de Hong Kong com a China Continental seja reaberta totalmente para viagens sem quarentena dentro de seis meses.
  • O governo chinês está fazendo o máximo para proteger a vida de seu povo e, por esta razão, uma abordagem dinâmica de zero-Covid é uma abordagem que realmente protege os direitos humanos mais importantes.

Resumo

Segundo Tian Feilong, a luta contra a epidemia em Hong Kong é também um teste crítico da eficácia real para o princípio dos "Patriotas administrando Hong Kong" (爱国者治港 Àiguó zhě zhì gǎng) e a capacidade de governança do Chefe do Executivo. Se eles passarem no teste, a confiança por parte de Hong Kong em "um país, dois sistemas"(一国两制yī guó liǎng zhì), nos governos local e central, e a perspectiva de integração econômica e política futuras serão mais fortes. Portanto, a luta contra a epidemia é uma questão política importante para a consolidação de "um país, dois sistemas". Como região administrativa especial, Hong Kong não deve ficar à parte do continente em termos dos níveis de manutenção da saúde e segurança de todas as pessoas, bem como de integração no desenvolvimento geral do país.

A “seleção de quadros baseada em treinamento”: Uma política prática de sucesso com características chinesas
Ji Naili
Ji Naili(季乃礼) é professor da Escola da Governança Zhou Enlai, Universidade Nankai

Contexto

A "seleção de quadros baseada em treinamento" (培养式选拔 péiyǎng shì xuǎnbá) é uma prática política com características chinesas para selecionar e promover talentos. Trata-se do mecanismo pelo qual os departamentos organizacionais do PCCh, trabalhando na construção organizacional e de quadros, selecionam um grupo de jovens quadros com potencial e perspectivas de desenvolvimento e os treinam sistemática e propositalmente para que eventualmente cheguem a importantes posições de liderança. Ji Naili analisa algumas formas principais de formação de quadros no PCCh.

Pontos-chave

  • Experiências no setor-núcleo (核心部门历练héxīn bùmén lìliàn): os principais líderes do Partido e do governo tendem a transferir jovens quadros para posições-chave geograficamente próximas para observação adicional. Nos governos locais, os dirigentes geralmente organizam jovens quadros para lidar com tarefas urgentes e difíceis, como aquisição de terras e realocação. Durante 2019 e 2020, reportagens da mídia mostraram que 27 dos 41 quadros promovidos para o nível departamental (厅局级tīng jú jí) passaram por tarefas urgentes e difíceis.
  • Servir em postos temporários (挂职锻炼guàzhí duànliàn): os jovens quadros vão assumir temporariamente diferentes cargos em diversos níveis ou em áreas diferentes para adquirir conhecimentos e experiências diversificadas, permanecendo no pessoal da organização de expedição. Nos últimos anos, cada vez mais jovens e excelentes quadros têm ido para áreas de base e remotas com ambientes de trabalho complicados para prestar seus serviços.
  • A rotatividade de postos (轮岗交流lún gǎng jiāo liú) visa melhorar a capacidade de trabalho e a qualidade básica dos jovens quadros. Em 2010, o departamento organizacional do Comitê Central do PCCh enviou 66 quadros de nível departamental do governo central para ocupar cargos em departamentos dos governos locais. Em 2020, 40 deles haviam sido promovidos a quadros de nível ministerial adjunto (副部级fù bù jí).
  • Treinamento de quadros (干部培训gànbù péixùn): um longo período de treinamento fora do trabalho em escolas do Partido, academias de liderança e outras instituições de formação de quadros é geralmente considerado um sinal de preparação pela organização. O mesmo relatório da mídia revelou que 15 dos 22 quadros promovidos a dirigentes a nível provincial e ministerial foram formados em escolas provinciais ou centrais do Partido.

Resumo

Ji aponta que os oficiais eleitos nos países ocidentais demostram capacidade fraca de governança. Por sua vez, na China, a dinâmica de "seleção-avaliação-confirmação-preparação-reseleção-promoção (ou eliminação)" de quadros tem vantagens proeminentes sobre o sistema ocidental. O autor também cita Xi Jinping, dizendo que a China deve treinar quadros para a futura liderança da China em 15 anos, 20 anos ou mesmo mais tempo.

Revitalização do campo: cinco modelos de engajamento dos camponeses na proteção do meio rural
Wang Xiaoli
Wang Xiaoli (王晓莉) é professora associada do Instituto de Pesquisas da Civilização Social e Ecológica, Escola do Partido do Comitê Central do PCCh
He Jianying
He Jianying (何建莹) é doutoranda do Instituto de Pesquisas da Civilização Social e Ecológica, Escola do Partido do Comitê Central do PCCh

Contexto

O Documento Central nº 1, divulgado no último 22 de fevereiro, propôs a promoção do desenvolvimento verde da agricultura rural e a implementação do plano de ação quinquenal para melhorar o ambiente rural até 2025. A participação dos camponeses define a eficácia dessas metas. No entanto, de acordo com Wang Xiaoli e He Jianying, atualmente os camponeses têm baixos níveis de participação e motivação para a governança ambiental. Nesse contexto, as autoras resumem suas experiências práticas e fazem sugestões no sentido de promover a participação efetiva dos camponeses, combinando os cinco casos típicos a seguir.

Pontos-chave

  • O modelo de vila "zero-poluição" (零污染 líng wūrǎn), apoiado por organizações sociais, baseia-se na liderança competente e na mobilização voluntária, e é motivado também por necessidades individuais. O modelo baseado em domicílio usa resíduos domésticos para produzir enzimas ecológicas para produtos cultivados e consumidos no nível familiar, e lança mão da implementação de um "sistema de pontos" (积分制 jīfēn zhì) para reduzir eventualmente o desperdício em 80%.
  • O modelo de gestão ambiental municipal (镇域环境治理 zhèn yù huánjìng zhìlǐ), apoiado por organizações sociais, aproveita seus mentores, membros de Partido, quadros locais e voluntários para conduzir treinamento e desenvolver programas de implementação profissional. O objetivo é aumentar a participação universal na separação do lixo pelos moradores e recompensar os resultados – o lixo foi reduzido em 65% nas áreas estudadas.
  • O modelo Anji (安吉模式 Ānjí móshì) foi financiado e criado pelo governo da circunscrição de mesmo nome. Ele usa o método operacional "vila + mercado", no qual cada morador paga um Yuan por mês, e o saneamento ambiental da aldeia é entregue a uma empresa de limpeza profissional que gerencia o processo com divulgação financeira regular e supervisão em vários níveis. Todos os funcionários participam do processo, e a separação do lixo está incluída nas regras da vila. Desde que o projeto começou, o ambiente natural da Anji foi belamente restaurado.
  • O tratamento de esgoto doméstico conduzido pela tecnologia, por meio de subsídios e assistência financeira governamentais, reduz os custos incorridos pelos moradores para transformar as instalações de descarga de esgoto. Além disso, os aldeões envolvidos no projeto piloto de transformação de esgotos geraram novas receitas, inspirando outros moradores a participarem ativamente.
  • No modelo de mercado de tratamento de esterco de gado e aves, o governo fornece apoio financeiro para reduzir a carga sobre as famílias camponesas, enquanto mobiliza forças sociais para monitorar, regular e promover o aproveitamento de esterco.

Resumo

Segundo as autoras, esses modelos de tratamento ainda estão em fase de exploração, embora estejam começando a dar frutos. Os modelos liderados pelo mercado e pela tecnologia contam com a participação dos camponeses com o objetivo de engajar sua participação ativa para torná-los sustentáveis. O modelo por iniciativas de organizações sociais (inclusive aquelas em vilas, municípios e circunscrições) precisa estimular os camponeses a participarem ativamente na governança ambiental rural, aumentando sua consciência ambiental, bem como promovendo o desenvolvimento industrial.

Conferência Zunyi: Um marco na sinicização do Marxismo
Jin Chongji
Jin Chongji (金冲及) é ex-diretor executivo adjunto do Escritório de Pesquisa de Literatura do Comitê Central do Partido Comunista da China (PCCh) e um renomado especialista em história do PCCh e da China moderna

Contexto

Desde a fundação da Base Revolucionária na Montanha Jinggang, em 1927, e que Mao Zedong começou a sinicizar o Marxismo e a explorar o caminho revolucionário baseado na realidade da China, a disputa sobre a linha ideológica dentro do Partido foi iniciada, e mais tarde se intensificou. Já em 1931, a tendência "esquerdista" de dogmatizar o Marxismo e as instruções e decisões do Comintern dominaram o PCCh, causando o fracasso da Quinta Campanha de Contracerco (第五次反围剿 dì wǔ cì fǎn wéijiǎo) (1933-1934) e as pesadas baixas do Exército Vermelho na Longa Marcha. A Conferência Zunyi, realizada de 15 a 17 de janeiro de 1935, salvou o Partido no momento mais crítico, tornando-se um marco na sinicização do Marxismo. O artigo de Jin Chongji examina em detalhes essa grande reviravolta.

Pontos-chave

  • Durante a Guerra Civil (1927-1937), houve uma batalha dentro do Partido entre o oportunismo "esquerdista" e a linha correta representada por Mao Zedong.
  • A partir de janeiro de 1931, a tendência "esquerdista" de Wang Ming dominou o Partido. Reivindicou a ofensiva militar sugerida pelo Comintern e intensificou a intervenção em bases revolucionárias e no Exército Vermelho. Em 1933, Bo Gu, então Secretário-Geral do PCCh, continuou cometendo os erros "esquerdistas" e negou a necessidade de uma guerrilha cooperada com a força principal do Exército Vermelho. Mao Zedong foi, assim, afastado de seu posto de liderança.
  • Nas forças armadas, Bo Gu outorgou o poder a Li De (Otto Braun), que veio do Comintern e não compreendeu a situação chinesa, e Li implementou o aventureirismo copiando teorias. Como resultado, a Quinta Campanha de Contracerco fracassou e o Exército Vermelho teve que abandonar a base revolucionária central.
  • A Conferência Zunyi acabou com o domínio do dogmatismo "esquerdista" na liderança do PCCh. Além de apontar os erros de sua estratégia e tática militar, Mao Zedong assinalou que: "a Conferência criticou o dogmatismo no sentido de que tudo na União Soviética estaria certo", e "a ideologia orientadora do PCCh mudou completamente a partir de então, sendo independente(独立自主dú lì zì zhǔ), buscando a verdade dos fatos (实事求是shí shì qiú shì) e, a partir da situação real na China, tornou-se o caminho certo aceito dentro do Partido".
  • Depois da Conferência Zunyi, Mao se tornou o chefe de fato do coletivo de liderança central, e uma versão madura deste foi gradualmente construída.

Resumo

Já em janeiro de 1930, baseado em sua rica experiência prática, Mao Zedong escreveu "Oposição ao culto ao livro" (反对本本主义 fǎnduì běnběn zhǔyì), criticando a tendência errônea de dogmatização do Marxismo, mas não recebeu nenhuma atenção dos demais. O Presidente Mao disse mais tarde que "a verdadeira compreensão da independência do PCCh começa com a Conferência Zunyi". Sob a orientação da correta linha marxista chinesa, o Exército Vermelho mudou sua estratégia de passiva para ativa e, assim, um novo desenvolvimento revolucionário teve início.

(O “Vozes Chinesas” continuará a interpretar o contexto histórico e a lógica de desenvolvimento da sinicização do Marxismo)

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