pt Vozes Chinesas
No. 38 | 27.03.2022
Um terceiro protótipo do grande avião C919 da China, desenvolvido localmente, realiza seu primeiro voo no Aeroporto Internacional de Xangai Pudong. [Foto/COMAC]
Por que a China está se agarrando à política de zero-COVID?
Zhang Wenhong
Zhang Wenhong (张文宏)é diretor do Centro Nacional de Doenças Infecciosas do Centro de Controle e Prevenção de Doenças da China (CDC, por sua sigla em inglês) e chefe do departamento de doenças infecciosas do Hospital Huashan, em Xangai

Contexto

No último surto global de COVID-19, mais de 1,1 milhão de novas infecções foram relatadas no mundo inteiro em 21 de março, com mais de 60.000 casos confirmados por milhão de pessoas. Enquanto isso, na China, 2.313 novos casos foram registrados no mesmo dia, com apenas 92 casos confirmados por milhão de pessoas. No entanto, o governo chinês ainda se compromete a aderir à “política dinâmica de zero-Covid” para conter o surto. Zhang Wenhong ressalta que, embora a taxa de mortalidade do vírus tenha sido bastante reduzida e a taxa de vacinação na China tenha aumentado constantemente (87,7%), "isso não é motivo para ficar deitado (躺平tǎng píng)", ou seja, indiferente à erradicação do vírus. Ele explica as razões pelas quais a China tem insistido em sua política contra COVID-19.

Pontos-chave

  • Dos 2.266 casos diagnosticados em Xangai nos últimos seis meses, a maioria foram importados, 94% ocorreram entre pessoas vacinadas e apenas 0,1% dos infectados ficaram gravemente doentes. Ainda há chances de se infectar depois de estar totalmente vacinado, mas as taxas de doença grave e mortalidade são menores que as da gripe.
  • Com este último surto de casos crescentes, os governos locais não estavam psicologicamente preparados nem contam com recursos sociais suficientes para responder adequadamente. Um relaxamento total dos controles agora causaria taxas de infecção maciças em um curto período, resultando em recursos médicos sobrecarregados e vidas normais do povo extremamente interrompidas.
  • Uma alta porcentagem de idosos e aqueles com comorbidades ainda não foram totalmente vacinados devido ao medo dos efeitos colaterais da vacina e, portanto, esses dois grupos sofreriam o impacto caso houvesse infecções generalizadas.
  • É crucial que continuemos adotando uma política de "zero-Covid" para manter a onda de propagação extremamente rápida da variação Ômicron em um nível totalmente gerenciável; mas isso não significa que adotaremos a estratégia de longo prazo de bloqueios ou testes em massa.

Resumo

Zhang afirma que o debate entre as políticas de "zero-Covid" e de "coexistência com vírus" é inútil. Em um futuro próximo, a China deve adotar uma estratégia de resposta à pandemia mais abrangente e sustentável, que inclui fornecer a terceira dose de vacinas para todos os idosos, disponibilizar medicamentos orais e kits de autoteste acessíveis ao público em geral, aplicando uma estratégia mais eficaz de diagnóstico e tratamento hierárquicos, e dar continuidade ao processo de quarentena domiciliar.

Desfazendo o mito do modelo estadunidense para o desenvolvimento financeiro da China
Zhang Yundong
Zhang Yundong(张云东)é ex-diretor do Burô da Comissão Regulatória de Valores Mobiliários da China em Shenzhen

Contexto

A epidemia deu à China a oportunidade de repensar seu setor financeiro e seu posicionamento, incluindo a influência do neoliberalismo e do modelo financeiro dos Estados Unidos. Como resultado da extração de enormes quantidades de capital pelas indústrias financeira e imobiliária, e a despeito das políticas de flexibilização monetária do Banco Central nos últimos anos, a economia real vem enfrentando dificuldades de financiamento, resultando em parte em um enfraquecimento da dinâmica econômica. Zhang Yundong acredita que a China precisa desenvolver seu próprio caminho, sem seguir cegamente o modelo financeiro estadunidense.

Pontos-chave

  • A China ainda não aprendeu as lições da crise financeira estadunidense de 2008. A financeirização da economia do país asiático tem sido notável. Após a eclosão da COVID-19 em 2020, os lucros líquidos dos bancos chineses listados aumentaram 5,62% no primeiro trimestre, enquanto a economia geral da China sofreu uma queda de 6,8%.
  • Em 2006, os lucros das empresas industriais chinesas com receita anual de mais de 20 milhões de Yuans foram 4,8 vezes os lucros das empresas financeiras; em 2019, caiu para 2. Em apenas treze anos, a proporção dos lucros das empresas industriais na economia geral diminuiu, enquanto que a das empresas financeiras aumentou significativamente.
  • O setor manufatureiro, não o setor de serviços, é o principal motor do crescimento econômico. Os países ocidentais têm seguido políticas de "desindustrialização" ao longo dos últimos 30 anos. Nos Estados Unidos, isso criou um grande cinturão da ferrugem (Rust Belt) e uma distância cada vez maior entre ricos e pobres. Após o surto de COVID-19 nos países ocidentais, a epidemia tornou-se incontrolável, em parte devido à incapacidade de tais países de garantir o fornecimento de suprimentos médicos.
  • As transações alavancadas e as transações de derivados financeiros têm a maior probabilidade de risco e o maior impacto negativo. Somente em raras ocasiões os investidores escapam do risco de negociar com derivativos, mas temos visto repetidamente que os gigantes financeiros europeus e estadunidenses têm sido duramente atingidos por transações de derivativos.
  • O objetivo fundamental do Socialismo é maximizar os interesses de toda a população. Ao contrário do Capitalismo, que maximiza o lucro, o Socialismo exige que as finanças sirvam aos interesses da sociedade como um todo e da economia real.

Sumário

Desde o 19º Congresso Nacional do PCCh, prevenir e resolver grandes riscos financeiros tem sido listado como uma das três grandes batalhas. A China deve aderir à abordagem de "trabalhar para o melhor, preparando-se para o pior" (底线思维 Dǐxiàn sīwéi) para administrar os serviços financeiros para a economia real e melhorar a estrutura regulatória dos derivativos financeiros. Em termos de política de investimento estrangeiro, o investimento industrial direto deve ser encorajado, enquanto o investimento financeiro e as transações financeiras devem ser administrados com mais prudência. Ao mesmo tempo, o estabelecimento de um sistema de monitoramento estatístico deve ser acelerado, e planos de contingência devem ser estabelecidos para grandes flutuações e ataques financeiros.

A arrogância dos Estados Unidos contra a China em razão da crise da Ucrânia é inaceitável
Li Haidong
Li Haidong(李海东) é professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Relações Exteriores da China

Contexto

Desde o início do conflito russo-ucraniano, a China tem trabalhado ativamente para uma resolução pacífica. No dia 18 de março, o Presidente Joe Biden convidou o Presidente Xi Jinping para uma videoconferência, na qual este líder propôs uma solução chinesa para a crise da Ucrânia. Li Haidong interpreta as declarações de Xi e a posição da China sobre a questão.

Pontos-chave

  • O prolongado conflito entre a Rússia e a Ucrânia significa que o arcabouço de segurança europeu e sua estrutura apresentam falhas graves. Isso é demonstrado pela agressividade de uma nova OTAN, dominada pelos Estados Unidos, e pela sua mentalidade de Guerra Fria.
  • Na chamada com o Presidente Biden, a expressão de Xi Jinping no sentido de "que seja aquele que põe o sino no tigre a tirá-lo" (解铃还须系铃人 jiě jiě líng hái xū xì líng rén)refere-se ao fato de que os Estados Unidos causaram a crise na Ucrânia e deveriam refletir sobre a forma de resolvê-la. Em vez disso, o país norte-americano tentou culpar a China e arrastá-la para dentro de seu processo de geopolítico frente à Rússia. "São necessários dois para o tango" (一个巴掌拍不响 yīgè bāzhang pāi bù xiǎng) refere-se ao fato de que tanto os Estados Unidos quanto a OTAN devem compartilhar a responsabilidade pela solução do conflito Rússia-Ucrânia.
  • Muitas das sanções dos Estados Unidos contra a Rússia, e consequentemente contra o resto do mundo, têm origem na legislação doméstica estadunidense. Típicas da jurisdição de braço longo usada pelos Estados Unidos, essas leis se afastam do Direito Internacional e dos princípios básicos na condução das relações internacionais.
  • Há quatro meses, Biden declarou em uma videochamada com Xi que os Estados Unidos não apoiavam a "independência de Taiwan" e não tinham a intenção de se envolver nos assuntos internos da China. As viagens recentes de alguns funcionários estadunidenses a Taiwan para discutir a venda de armas, defender o retorno da ilha ao sistema da ONU e criar uma versão Ásia-Pacífico da crise ucraniana demonstram que o compromisso dos Estados Unidos com a não-interferência é apenas retórica diplomática.

Sumário

Li Haidong explica que a visão dos Estados Unidos é caracterizada pela miopia ao lidar com as relações com a China. Os Estados Unidos estão concentrados apenas na ajuda chinesa para a resolução do conflito russo-ucraniano. Ao mesmo tempo, o país não é sincero ao tratar de questões centrais que preocupam a China, como Taiwan, e carece de uma compreensão pragmática, racional e estratégica das relações sino-estadunidenses. Para enfrentar a crise da Ucrânia, como salientou o Presidente Xi Jinping, os Estados Unidos deveriam abandonar sua mentalidade de Guerra Fria, abster-se de instigar o confronto em bloco e criar uma arquitetura de segurança regional verdadeiramente equilibrada, eficaz e sustentável para alcançar a paz e a segurança a longo prazo no continente europeu.

Por trás do banimento da Huawei: a ascensão do poder industrial da China
Lu Feng
Lu Feng(路风)é professor do Departamento de Economia Política, Escola de Governo, Universidade de Pequim

Contexto

O avanço do 5G da Huawei, banido pelos Estados Unidos e seus aliados, levou a um consenso entre o povo chinês sobre a inovação tecnológica independente. Lu Feng traçou as origens da força motriz da inovação das empresas chinesas, ou seja, o espírito industrial chinês, e sintetizou a ascensão e a decadência das indústrias da China desde 1949, bem como seu renascimento recrudescido no século XXI.

Pontos-chave

  • Existem duas metas aparentemente contraditórias desde a fundação da Nova China: erradicar a pobreza extrema para elevar o padrão de vida da população (富民 fù mín) e seguir um caminho politicamente independente para tornar a China um país poderoso (强国 qiáng guó).
  • Os líderes fundadores da Nova China fizeram da construção de um país mais forte sua primeira prioridade. Da década de 1960 até o final da década de 1970, a China seguiu a estratégia de inovação tecnológica independente e fez grandes avanços em muitos campos. A bem-sucedida pesquisa e desenvolvimento das Duas Bombas, Um Satélite (两弹一星liǎng dàn yì xīng) foi um exemplo típico.
  • Desde o final da década de 1970, a prioridade máxima do governo passou a ser a elevação significativa do padrão de vida do povo, implementando políticas de reforma e abertura. Isso também levou a uma mudança total da estratégia tecnológica, ou seja, abandonando a orientação da “autossuficiência e independência tecnológica” e confiando nas importações para aprimorar a tecnologia. Exemplos típicos dessa política foram a interrupção da produção de automóveis Hongqi e do avião Y-10 de Xangai. O espírito industrial chinês estava em declínio.
  • Durante as décadas de 1980 e 1990, a estratégia tecnológica chinesa pode ser resumida como a introdução de tecnologias avançadas do exterior, a domesticação dessas tecnologias e o autodesenvolvimento. A política, no entanto, resultou na forte dependência da China da tecnologia e expertise estrangeiras e levou ao fenômeno do "lock-in" de baixo nível da fabricação chinesa na cadeia de valor global. Por exemplo, a indústria automotiva chinesa foi incapaz de desenvolver um novo modelo de veículo por 20 anos.
  • O fator determinante para o renascimento do espírito industrial da China no século XXI foram as capacidades fundamentais acumuladas durante a fase de autossuficiência da China (自力更生zì lì gēng shēng). As origens tecnológicas da ZTE e a ascensão meteórica da Huawei se baseiam na primeira máquina de interruptor de controle de programa armazenado (SPC, por sua sigla em inglês) da China. A equipe técnica da SPC participou de um projeto de pesquisa e desenvolvimento de computadores mainframe liderado pelas forças armadas na década de 1970.
  • Devido ao acúmulo de 60 anos de conhecimento no desenvolvimento independente de produtos pelas indústrias ferroviárias e de equipamentos, em vez da introdução de tecnologia do exterior, a China, com seu trem de alta velocidade de classe mundial, tornou-se líder global em transporte.

Resumo

O autor assinala que o renascimento do espírito industrial da China se baseia em seus primeiros trinta anos (1949-1979) de construção de importantes infraestruturas para que ela pudesse industrializar a nação e moldar a visão de mundo do povo chinês. A crise do Estreito de Taiwan de 1996, manipulada pelos Estados Unidos, despertou a aspiração do povo por um "país mais forte". A entrada na OMC deu à China um enorme impulso econômico devido ao desenvolvimento do comércio econômico mundial, mas o país permaneceu relativamente baixo na cadeia de fornecimento global. O reconhecimento da necessidade de combinar "tornar-se mais rico" com "tornar-se mais forte" contribuiu para o renascimento do espírito industrial chinês do século XXI. Os profissionais da indústria perceberam que a China deve assumir a liderança no desenvolvimento tecnológico e industrial para competir internacionalmente com os países desenvolvidos, e inspirar o crescimento de outros países em desenvolvimento.

Unidade e luta entre o Partido Comunista da China e o Kuomintang durante a Guerra de Resistência contra a Agressão Japonesa
Jin Chongji
Jin Chongji (金冲及) é o ex-vice-diretor executivo do Escritório de Pesquisa de Literatura do Comitê Central do Partido Comunista da China (PCCh)

Contexto

O Incidente da Ponte de Lugou, em 7 de julho de 1937, marcou o início da invasão japonesa, em grande escala, na China. O Partido Comunista da China (PCCh), representado por Mao Zedong, estabeleceu e defendeu firmemente a Frente Nacional Unida Contra a Agressão Japonesa (抗日民族统一战线 Kàngrì mínzú tǒngyī zhànxiàn) e acabou vencendo a Guerra de Resistência contra a Agressão Japonesa. Neste artigo, Jin Chongji explica como o PCCh se uniu ao Kuomintang (KMT) para lutar contra o Japão de 1937 a 1941, buscando cooperação no meio da luta, e aplicando a teoria marxista de criação de uma frente unida à realidade da Revolução Chinesa.

Pontos-chave

  • Em 13 de agosto de 1937, eclodiu a Batalha de Songhu, e os invasores japoneses se aproximaram de Nanjing, o centro governante do KMT; Chiang Kai-shek precisava urgentemente do Exército Vermelho dos Trabalhadores e Camponeses liderado pelos comunistas (工农红军gōngnong hóngjūn) para ir à frente e lutar contra os japoneses.
  • Durante a agressão japonesa, o KMT tinha intenção de destruir o Exército Vermelho, ao “integra-lo" a suas forças. Mao Zedong, no entanto, levantou a questão da "independência na Frente Unida", insistindo que o Exército Vermelho deveria ter uma estrutura política independente e exigindo a emissão de uma declaração de cooperação entre o PCCh e o KMT que afirmasse o status legal dos comunistas. Dessa forma, a cooperação entre as duas partes foi alcançada.
  • Após outubro de 1938, a ofensiva japonesa desacelerou, e Chiang Kai-shek instigou mais agressões contra os comunistas, incluindo o "banho de sangue de Pingjiang", que matou os correspondentes do Novo Quarto Exército e atacou as bases revolucionárias em Shanxi e Hebei. Mao Zedong explicou a atitude do Partido Comunista dizendo: "Se as pessoas não me ofenderem, não as ofenderei; se me ofenderem, eu as ofenderei".
  • Em 11 de março de 1940, Mao Zedong afirmou em seu relatório "Os Problemas Táticos da Atual Frente Nacional Unida Contra a Agressão Japonesa": "A luta é o meio, a unidade é o fim". Esta foi uma diretriz clara para o Partido Comunista administrar as complicadas relações entre o Kuomintang e o Partido Comunista.
  • Em janeiro de 1941, o Kuomintang desencadeou o Incidente do Sul de Anhui, no qual o Novo Quarto Exército sofreu cerca de 7.000 baixas, provocando grande indignação e condenação dentro do Partido Comunista, além do público chinês e da comunidade internacional. Chiang Kai-shek prometeu publicamente "não reprimir os comunistas", e os comunistas decidiram não iniciar uma contra-ofensiva militar.

Resumo

O estabelecimento da Frente Nacional Unida contra a Agressão Japonesa foi repleto de contradições. A experiência do Incidente do Sul Anhui fez com que o PCCh percebesse a importância vital de "conquistar os centristas". A fim de lutar contra os invasores japoneses, mesmo diante dos assassinatos do KMT, o PCCh insistiu em uma luta "razoável, favorável e moderada". Os esforços árduos do PCCh evitaram uma ruptura entre os dois partidos e uma guerra civil, dando lugar à conquista do apoio da maioria do povo, alcançando assim finalmente vitórias na Guerra de Resistência contra a Agressão Japonesa e na Guerra de Libertação (解放战争 jiěfàng zhànzhēng ).

(O “Vozes Chinesas” continuará a interpretar o contexto histórico e a lógica de desenvolvimento da sinicização do Marxismo)

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