pt Vozes Chinesas
No. 43 | 01.05.2022
Feliz Dia Internacional do Trabalhador! [Xiang Wang]

Caro(a) leitor(a),

Devido ao próximo Dia Internacional do Trabalhador e da Trabalhadora e ao Dia da Juventude da China, não publicaremos o Vozes Chinesas na próxima semana. Depois de uma breve pausa, no dia 15 de maio, voltaremos a trazer para você reflexões novas e atualizadas sobre questões relacionadas à China. Desejamos a você tudo de bom!

—Coletivo editorial Dongsheng

Por que a economia da China continua a crescer?
Lu Feng
Lu Feng (路风) é professor da Escola de Governo da Universidade de Pequim

Contexto

A economia da China cresceu 4,8% no primeiro trimestre de 2022, abaixo da meta de crescimento de 5,5% estabelecida para este ano. Lu Feng assinala, no entanto, que o milagre econômico chinês se baseia em seu sistema industrial e na estrutura estatal estabelecida na era Mao. Esse mecanismo de crescimento vem desempenhando um papel chave para impulsionar a economia da China nos últimos 70 anos; portanto, não há um "teto" para o crescimento econômico do país.

Pontos-chave

  • A visão predominante dos economistas chineses é que o milagre econômico durante a era da Reforma se deve às reformulações econômico-institucionais e a uma mudança na prioridade estratégica da China, de uma ênfase na indústria pesada para indústrias de mão de obra intensiva, com base em sua vantagem comparativa. Esse ponto de vista também sustenta que o tremendo crescimento da China, desde o século XXI, é impulsionado especificamente por sua adesão à Organização Mundial do Comércio (OMC).
  • Países como o Brasil e a África do Sul não experimentaram um aumento significativo no crescimento econômico após a acessão à OMC. Isso implica que esse movimento não consiste no fator decisivo que sustenta o rápido crescimento da China. É o sistema industrial semi-consolidado do país que permite que se beneficie do comércio global, tornando, assim, a adesão àquela organização internacional uma condição favorável ao crescimento econômico.
  • A China possui 41 grandes categorias industriais, 191 categorias médias, e 525 subcategorias, tornando-a o único país do mundo que possui todas as categorias do sistema de classificação industrial das Nações Unidas. Isso se deve aos 30 anos de industrialização que precederam a Reforma e a Abertura. Uma das maiores realizações desse período foi o estabelecimento de uma economia de mercado socialista, mantendo intacto o sistema industrial socialista chinês. O enorme investimento estrangeiro na China tem sido complementar ao seu crescimento econômico.
  • A China experimentou um alto crescimento simultâneo em todos os setores industriais. O crescimento da indústria siderúrgica revela a tremenda força do sistema industrial chinês. Nenhum outro país do mundo experimentou esse tipo de alta taxa de crescimento em qualquer etapa de seu desenvolvimento. Entre os anos 2000 e 2014, a produção de aço bruto da China aumentou de mais de 120 milhões de toneladas em 2000 para 820 milhões de toneladas em 2014 – um aumento líquido de mais de 700 milhões de toneladas em menos de 15 anos.
  • Nem as reformas orientadas para o mercado, um veículo importante para esse crescimento, nem a adesão à OMC, foram a força motriz do crescimento industrial chinês, o qual fora sobretudo impulsionado pelas indústrias de capital intensivo a partir da demanda interna (a China foi um importador líquido de aço até 2004).
  • Há outro fator que tem permitido que o desenvolvimento econômico da China siga de maneira initerrupta (apesar de suas reviravoltas) por 70 anos – a estrutura estatal estabelecida pelos líderes da geração fundadora. Isso tem assegurado que a economia da China se desenvolva de forma independente, não dominada por capitalistas e amplamente apoiada por toda a sociedade.

Resumo

De acordo com Lu Feng, o crescimento econômico da China é um fenômeno de longo prazo. Hoje, o sistema industrial chinês está mais sólido do que nunca, e não há fim à vista para o progresso tecnológico e para as mudanças estruturais do sistema industrial. Assim, a era dourada do crescimento econômico da China ainda está por vir.

Como a China ajuda os países em desenvolvimento a reduzir a dívida ao invés de aumentá-la
Justin Lin Yifu
Justin Lin Yifu (林毅夫) é o reitor do Instituto de Nova Economia Estrutural da Universidade de Pequim, e é ex-economista-chefe do Banco Mundial

Contexto

Com a crescente crise da dívida no Sri Lanka, a mídia ocidental dominante está novamente propagando a chamada "teoria da armadilha da dívida" chinesa, usando exemplos como o porto de Hambantota naquele país. Nesta entrevista, Lin Yifu refuta essa distorção midiática da cooperação para o desenvolvimento da China, aponta a ineficácia da ajuda dos países ocidentais e suas instituições financeiras multilaterais, e explica como a cooperação para o desenvolvimento internacional da China transcendeu o modelo ocidental para alcançar o desenvolvimento mútuo com o Sul Global.

Pontos-chave

  • Os problemas da dívida de muitos países em desenvolvimento se acumularam durante um longo período de tempo. Por exemplo, estudos feitos por especialistas mostram que 90% da dívida do governo do Sri Lanka foram contraídos através de empréstimos a outros países, e apenas 10% foram creditados a empréstimos chineses. Oitenta e cinco por cento da dívida dos "países altamente endividados" da África foram adquiridos de países desenvolvidos antes dos investimentos do país asiático no continente.
  • Depois dos anos 80, com o recrudescimento do neoliberalismo, o Ocidente empurrou a narrativa de que a lacuna de infraestrutura poderia ser reduzida pelo setor privado. Seguindo o conselho do FMI e do Banco Mundial, a maioria dos países em desenvolvimento implementou reformas para reduzir os gastos públicos do governo e aumentar o papel do mercado. Isso levou a uma deterioração das condições econômicas.
  • Um exemplo de condicionalidade resultante de um empréstimo do FMI é que Burkina Faso foi solicitada a implementar 500 reformas institucionais por ano.
  • A assistência prestada a partir de empréstimos dos países ocidentais aos em desenvolvimento foi baseada na experiência dos primeiros. Seus investimentos, de modo geral, foram feitos em setores como educação, saúde, direitos humanos e transparência política, que não puderam reduzir os gargalos de desenvolvimento.
  • Com base em sua própria experiência como país em desenvolvimento, a China criou um modelo de desenvolvimento de infraestrutura mais cooperação em parques industriais baseado nos princípios de consultas extensivas, contribuições conjuntas, e benefícios compartilhados. O modelo não apenas ajudou a criar um ciclo contínuo de crescimento econômico para os países em desenvolvimento, mas também aumentou sua capacidade de pagar suas dívidas. Essa é a razão pela qual os projetos internacionais de infraestrutura da China são apoiados por muitos países.

Resumo

Lin assinala que não existe algo como a "armadilha da dívida" chinesa. Se as economias dos países em desenvolvimento não crescerem, as regiões sofrerão com o desemprego e agitação social e política. Os países em desenvolvimento deveriam descobrir um caminho adequado para seu próprio desenvolvimento com base em seus próprios fracassos e sucessos.

A entrega de suprimentos militares regulares da China à Sérvia não é uma demonstração de força
Chen Feng
Chen Feng (晨枫) é um escritor freelance especializado em questões militares

Contexto

Entre os dias 9 e 12 do último mês de abril, a China entregou à Sérvia sistemas de mísseis antiaéreos FK-3 (Red Flag-22, por sua sigla em inglês). É a primeira vez que os mísseis antiaéreos chineses são vendidos à Europa, tocando um ponto nevrálgico do Ocidente. A Sérvia, um país parceiro da China no âmbito da Iniciativa do Cinturão e da Rota, selecionou mísseis antiaéreos chineses por meio de uma licitação em 2019. Chen Feng analisa os fatores históricos e práticos por trás da cooperação entre os dois países.

Pontos-chave

  • A Sérvia foi profundamente afetada pelos jogos geopolíticos das grandes potências, e está de fato consciente da importância dos sistemas de defesa militar. O país europeu foi a primeira vítima da Primeira Guerra Mundial. Durante a Segunda Guerra Mundial, os apoios britânico e estadunidense não impediram a invasão alemã no seu território. Após a Guerra Fria, sob a retórica dos "direitos humanos acima da soberania", a Iugoslávia foi desmembrada pela OTAN.
  • A Sérvia solicitou sua acessão à União Europeia em 2009, porém ainda não foi admitida. Foi a Iniciativa do Cinturão e da Rota que levou o país a um desenvolvimento econômico substancial. Com base nas lições históricas e na atual situação internacional, o país fez uma escolha histórica, ou seja, aderir a um caminho independente e neutro de desenvolvimento pacífico.
  • Depois de ter comparado o míssil chinês FK-3, ao míssil russo S300 e ao míssil estadunidense Patriot, o país finalmente escolheu o primeiro, o qual integra as vantagens tecnológicas dos demais Além disso, a China já está na vanguarda do desenvolvimento global de mísseis antiaéreos.
  • A Sérvia é um país militarmente neutro e não se alinha a nenhum outro Estado ou grupo em termos de política de segurança e equipamento bélico. Faz escolhas econômicas e políticas de acordo com seu interesse nacional. No caso de seus mísseis antiaéreos, escolheu a Bandeira Vermelha-22 (Red Flag-22) da China.
  • A escolha sérvia é totalmente coerente e transparente. Os mísseis antiaéreos são equipamentos defensivos, não destinados a efetuar ataques contra países vizinhos. Também é completamente irracional que o Ocidente acuse a China de estar “demonstração de força”. A China nunca vende equipamentos bélicos que alteram a balança de poder militar regional, muito menos que ameacem a paz regional.

Resumo

Chen Feng acredita que a China tem uma necessidade urgente de modernizar suas forças armadas. Também é inevitável que o gigante asiático exporte sua tecnologia militar neste momento de rápido desenvolvimento econômico e tecnológico. O país não usa o comércio militar para construir esferas de influência, mas atua como uma força construtiva nas relações internacionais, ajudando os países receptores a melhorar suas capacidades de defesa nacional.

A guerra de informação por trás do conflito militar russo-ucraniano
Cheng Honggang
Cheng Honggang (程宏刚) é pesquisador sênior do Instituto Taihe e especialista em questões da Ásia Central e da Europa Oriental

Contexto

Embora não estejam diretamente envolvidos militarmente no conflito russo-ucraniano, os Estados Unidos vêm utilizando sua hegemonia para manipular a opinião pública a fim de influenciá-la de forma significativa. Cheng Honggang analisa a guerra de informação por trás desse conflito e suas implicações para a China.

Pontos-chave

  • A fim de controlar a Europa, enfraquecer a Rússia e expandir suas exportações de energia e indústria militar, os EUA provocaram o conflito militar russo-ucraniano. Vêm manipulando a opinião pública para demonizar a Rússia, fazendo com que a "russofobia" se alastre pelo mundo ocidental.
  • A Rússia, por sua vez, usou a opinião pública, psicologia e inteligência para montar uma campanha global eficaz de defesa e comunicação. Por exemplo, denunciou os Estados Unidos pelo uso de sua hegemonia para fornecer armas de destruição em massa à Ucrânia. Também buscou apoio internacional sob a bandeira da "desnazificação" deste país.
  • Empresas de internet sediadas nos EUA tornaram-se ferramentas de manipulação política em apoio a grupos de interesse domésticos. Google, Apple, Intel, META e outros gigantes tecnológicos cortaram os suprimentos e suspenderam o serviço para a Rússia. As contas oficiais russas estão em sua maioria "restringidas" pelo Twitter, Facebook, YouTube, entre outros.
  • Em resposta às sanções dos EUA aos serviços de internet, a Rússia tomou medidas para garantir a segurança cibernética nacional e controle de rede, lançando a RUNET, sua própria "rede local", e impondo restrições aos meios de comunicação estadunidenses, como a CNN e a ABC.
  • A Agência Central de Inteligência dos EUA (CIA, por sua sigla em inglês) orquestrou e organizou ativistas anti-russos ao redor do mundo para postar informações falsas nas mídias sociais. Um exemplo foram as cenas falsas de uma jovem ucraniana enviando seu pai para a guerra, destinadas a incitar o ódio internacional pelas ações militares russas.
  • Os países ocidentais vêm lançando uma série de ataques cibernéticos massivos à Rússia, os quais têm causado um sério impacto sobre os centros de controle espacial, defesa nacional, energia, finanças, telecomunicações e outros setores russos importantes. Com a ajuda dos Estados Unidos, o governo ucraniano formou um "Corpo de TI", que também tem empreendido vários ataques cibernéticos ao seu país rival no conflito.

Resumo

O autor observa que a guerra de informação do Ocidente contra a Rússia provavelmente se repetirá na competição estratégica contra a China. Os políticos ocidentais anti-chineses já usaram o conflito russo-ucraniano para atacar a China e especular sobre Taiwan e outras questões. A China deveria aprender com sua experiência, compensar suas lacunas e deficiências na tecnologia da internet, manter a coesão social interna, e construir um soft power internacional para lidar com crises futuras.

“Sobre o Governo de Coalizão”: o primeiro projeto abrangente de Mao para a modernização da China
Yang Hongyu
Yang Hongyu (杨宏雨) é professor da Escola de Marxismo da Universidade Fudan
Yan Zhewen
Yan Zhewen (严哲文) é doutorando na Escola de Marxismo da Universidade Fudan

Contexto

Em abril de 1945, quando a luta global contra o fascismo e a Guerra de Resistência do Povo Chinês contra a Agressão Japonesa estavam prestes a ser ganha, Mao Zedong apresentou um relatório político intitulado "Sobre o Governo de Coalizão" no Sétimo Congresso do Partido Comunista da China (de 23 abril a 11 de junho de 1945), realizado em Yan'an. No relatório, Mao aplicou o Marxismo-Leninismo à realidade chinesa e propôs os objetivos e o caminho para alcançar a modernização da Nova China após a vitória da guerra de resistência. De acordo com Yang Hongyu e Yan Zhewen, "Sobre o Governo de Coalizão" é a primeira proposta estratégica de Mao para a modernização da China.

Pontos-chave

  • Após a vitória da Guerra de Resistência contra a Agressão Japonesa, a questão do como lidar com o Partido Kuomintang (KMT) tornou-se um problema urgente para o PCCh. Após anos de guerra, o povo estava ansioso por paz e democracia, e o PCCh nunca desistiu de negociar com o KMT. Com base nisso, Mao Zedong elaborou a estratégia política de estabelecer um governo de coalizão democrático. Ele destacou que o pré-requisito para o estabelecimento de um governo de coalizão era a abolição da ditadura da elite política antipopular do KMT.
  • De acordo com a visão de Mao, a China, durante todo o período do novo sistema democrático, estava em um estágio diferente da fase socialista da ditadura do proletariado e, portanto, o governo de coalizão era "uma frente unida de todas as classes democráticas”.
  • Economicamente, Mao propôs uma estratégia de crescimento centrada na libertação e desenvolvimento das forças produtivas. Baseando-se nas idéias de Sun Yat-sen de "terra para o lavrador" (耕者有其田 gēng zhě yǒu qítián) e "restrição ao capital" (节制资本 jiézhì zīběn), ele defendeu a reforma agrária e a distribuição de terras para o povo, enquanto direciona o capital dos latifundiários para a indústria. Também enfatizou a necessidade de o Estado operar e administrar bancos, ferrovias e outras áreas-chave de importância nacional e relacionadas à subsistência do povo.
  • Devido à baixa produtividade da sociedade naquela época, Mao reconheceu a necessidade de desenvolver o setor privado para promover o crescimento econômico. Também defendeu o uso de capital estrangeiro, "comércio livre e igualitário com todos os países" e "apoio à indústria privada" para promover o desenvolvimento econômico da China.
  • Culturalmente, Mao defendia a construção de uma nova cultura democrática que fosse anti-imperialista e antifeudal e que servisse ao povo, motivo pelo qual propôs a promoção ativa da alfabetização.

Resumo

A iminente vitória na guerra contra a agressão japonesa possibilitou que a China se tornasse, pela primeira vez em um século, um Estado independente, livre, democrático, unificado e poderoso. Os três principais grupos políticos do país na época – a Liga Democrática, o PCCh e o KMT – apresentaram suas próprias estratégias para a construção e modernização da nação. No entanto, "Sobre o Governo de Coalizão" de Mao Zedong conformou-se à realidade da época e acabou se tornando a escolha do povo, constituindo-se uma importante conquista da sinicização do Marxismo, caracterizada por dois elementos-chave: a independência nacional e a realização da democracia política e da industrialização econômica.

(O “Vozes Chinesas” continuará a interpretar o contexto histórico e a lógica de desenvolvimento da sinicização do Marxismo)

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